Historiografia Grega Cristã

Os mais significativos escritores gregos do século V imitam cons­cientemente Eusébio, dedicando sua atenção à história da Igreja cristã: essa história tornou-se agora um gênero literário, canonizado pela au­toridade do bispo de Cesário (traduzido no Ocidente por Jerônimo e Rufino).

O título dessas obras históricas é constante: História da Igreja.
Mas de qual Igreja? Eusébio tivera ainda uma perspectiva "universal", considerando ao mesmo tempo a Igreja do Ocidente e a do Oriente; os historiadores que o sucedem em língua grega dirigem sua atenção, a partir de agora, cada vez mais para o Oriente. O Ocidente assume papel secundário nessas "Histórias", e sempre em função do impera­dor de Bizâncio e do cristianismo (se não da Igreja - ou das igrejas) oriental. O mundo bizantino, ainda bem sólido e só relativamente abalado pelas invasões bárbaras, diferentemente do ocidental, quer propor uma historiografia triunfal, centrada nos fatos do próspero Oriente, e, portanto, voluntariamente fecha os olhos para as desgra­ças que atingem o Ocidente: os historiadores gregos fazem apenas breves alusões, quando não se calam, ao saque de Roma de 410, que tantas marcas deixara no Ocidente e provocara tantas reflexões nas pessoas mais sensíveis.

O público a que se dirigem os historiadores desse período é o dos círculos mais restritos e mais elitistas da sociedade bizantina, diferente­mente daquele ao qual se dirige a literatura hagiográfica da mesma épo­ca. Os autores são geralmente pessoas cultas ou juristas, ligadas à corte e à alta hierarquia eclesiástica; seus leitores, igualmente cultos, estão mais interessados na história das idéias que nos acontecimentos que abalaram a Igreja do século IV e V; a reflexão que devem e querem extrair deles tem, ao mesmo tempo, caráter religioso e político.


FILOSTÓRGIO
Quem nos leva ao ponto alto da controvérsia ariana é o historiador Filostór­gio, que participou dela como leigo - e isso já constitui um motivo de interesse. Tanto seus pais quanto o próprio Filostórgio foram defensores do partido de Eunômio, que tivera uma modesta difusão entre 360 e 380 (cf. p. 344) na Ásia Menor. Filostórgio nasceu por volta do ano de 368 em Borisso, cidade da Capa­dócia, mas já aos 20 anos mudou-se para Constantinopla, onde permaneceu pelo resto de sua vida, a não ser para fazer uma viagem à Palestina.

Residindo em Constantinopla, escreveu uma História da Igreja, que se pro­pôs continuar em 12 livros a obra homônima de Eusébio, até o ano 425; esta foi concluída por seu autor em 433. Defensor entusiasta do arianismo mais radical, Filostórgio estava convencido de que os maiores cristãos de sua época haviam sido, precisamente, os arianos Aécio de Antioquia e Eunômio de Cízico; que Atanásio levara a Igreja à ruína e que a verdadeira ortodoxia era a dos anomeus.

Sua história, infelizmente, chegou até nós fragmentária. Estava ainda com­pleta nos tempos de Fócio, que louva seu estilo requintado e elegante, mas ob­serva como o relato de Filostórgio está em contradição com o dos outros histo­riadores da Igreja, na medida em que ele exaltava todos os arianos, ao passo que acusava e insultava os ortodoxos, de modo que, conclui Fócio, "sua história não é tanto uma história, quanto uma celebração dos hereges e uma aberta acusação e ofensa aos ortodoxos".


SÓCRATES
Temos poucas informações sobre esse historiador. Nasceu e cresceu em Constantinopla, onde passou também os últimos anos de sua vida. Provavelmente nunca saiu de Constantinopla para se informar melhor sobre os fatos narrados. Nunca fala de seu oficio. Os manuscritos dão a ele o sobrenome de "escolástico", que normalmente é entendido como "procurador legal" ou também como "jurista".

Com certeza não pertence ao clero da capital, embora tenha recebido de um "homem de Deus", de nome Teodoro, a inspiração para escrever sua obra. Segundo alguns estudiosos, esse Teodoro teria sido um encarregado oficial do imperador, quase um superintendente dos arquivos, nomeado entre os integran­tes da comissão que devia ocupar-se da redação do Codex Theodosianus, desejado pelo imperador Teodósio II, que entrou em vigor em 1o de janeiro de 439. A obra de Sócrates, portanto, como a de Sozômeno, entraria no âmbito da ativida­de cultural produzida pela preparação daquele Codex.


A) A HISTÓRIA DA IGREJA
Sua obra, portanto, é uma História da Igreja, que é uma continuação da de Eusébio, como declara o proêmio. Estende-se por sete livros, desde o tempo da abdicação de Diocleciano, em 305, até 439; a sucessão dos imperadores, que divide sua história, é a dos imperadores do Oriente. Cada livro abarca o reinado de um imperador, com exceção do terceiro, que compreende os reinados de Juliano e Joviano ao mesmo tempo. Sócrates publicou sua obra duas vezes, e a narração que chegou até nós reproduz a segunda redação dessa obra. Como ele nos informa no inicio do segundo livro, após a descoberta de novo material, que não desejava deixar inédito, viu-se obrigado a reescrever sua obra. Esse material consistiria nos escritos de Atanásio e em cartas de personagens importantes daquela época.


B) OS CRITÉRIOS HISTORIOGRÁFICOS DE SÓCRATES
A disposição da obra, a que nos referimos acima (cada livro corres­ponde ao reinado de um imperador), mostra-nos o esforço de Sócrates em conciliar a história da Igreja, à qual ele dedica sua atenção precípua, com a história do império propriamente dita, pela qual ele não tem interesse especial. Nisso consiste a diferenciação de Eusébio, e nisso Sócrates será seguido também por seu contemporâneo Sozômeno. A novidade desse enfoque historiográfico será explicada no prefácio ao quinto livro, no qual o autor expõe as intenções de seu trabalho, que provavelmente já suscitara críticas pela excessiva atenção que ele de­dicara à história dos imperadores como parte da história da Igreja. Sócrates admite que incluíra também os acontecimentos da história profana na história da Igreja, e apresenta vários motivos para esse pro­cedimento: em primeiro lugar, ele permite uma narração precisa dos fatos; além disso, serve para impedir que o leitor se entedie com a narrativa de contínuas intrigas entre eclesiásticos; pede-lhe que aceite com paciência se, às vezes, menciona até os eventos de guerra, embora estes estejam tão distantes de seus propósitos. Os infortúnios da vida civil e as dificuldades atravessadas pelas várias igrejas foram, de fato, duas coi­sas ligadas e devem ser entendidas como punições infligi das por Deus aos homens por seus pecados.

Sócrates procura expor os fatos com simplicidade e clareza. Ele diz que deseja evitar qualquer tentativa de embelezamento retórico, visando apenas ser entendido sem dificuldades. Não raro transcreve literalmente seus documentos históricos, e assim fazendo contradiz uma regra con­solidada na tradição histórica antiga, a de não inserir no texto elementos estranhos a ele, como é o caso precisamente dos documentos, no plano estilístico, tanto que Sozômeno, escrevendo depois dele, abandona essa prática, talvez por discordância implícita. Aliás, esses documentos, que podem ser dois ou mais um após o outro, às vezes chegam a se sobrepor à narrativa histórica, que se mostra exígua. Seja como for, Sócrates emite seu próprio juízo sobre as fontes que emprega.


SOZÔMENO
De Salamanes Hermas Sozômeno (este teria sido seu nome comple­to, segundo as notícias de Fócio) temos também poucas informações. Quando estava escrevendo sua História da Igreja, ele era (assim nos informa) scholastikos, ou seja, como Sócrates, advogado ou jurisconsulto, em Constantinopla. Contudo, não era originário da capital, mas do pe­queno vilarejo de Betélia, próximo da antiga cidade dos filisteus, Gaza, onde nascera por volta do ano de 380 de uma família de antiga fé cristã, convertida graças aos milagres do famoso anacoreta Hilarião, cuja vida é narrada por Jerônimo.


A) A HISTÓRIA DA IGREJA
Sozômeno submeteu a publicação de sua história à aprovação do imperador Teodósio II, a quem se dirige com uma dedicação repleta de espírito de cortesia. Que o imperador aceite seus esforços, que os submeta a exame e que os modifique a seu critério. A censura imperial será a norma a que Sozômeno se aterá; se o imperador quiser, ele não acrescentará uma linha sequer a sua obra. Parece que efetivamente isso ocorreu, se se interpretar nesse sentido a inesperada interrupção da Hirtória da Igreja. A obra, de fato, que devia chegar até o ano de 439, detém-se em 414, embora no decorrer da narração se aluda a acontecimentos posteriores àquele ano, como a ascensão ao trono de Valentiniano III, imperador do Ocidente, em 425, e a uma introdução de relíquias em Constantinopla na época do patriarca Proclo, ou seja, durante o período entre 434 e 446.

A História da Igreja é narrada em nove livros, a começar do ano do ter­ceiro consulado de César Crispo e Constantino (324), e deveria ter chega­do, segundo o projeto, ao décimo sétimo consulado do imperador Teodó­sio lI, ou seja, a 439. O último livro, porém, como dissemos, compreende a história do imperador reinante, Teodósio II, só até o ano de 414.

A obra de Sozômeno quer ser uma narração dos acontecimentos posteriores a Constantino, que interpreta segundo a fé ortodoxa; mas, embora o tema e o título sejam análogos aos de Eusébio, Sozômeno não é um verdadeiro continuador do bispo de Cesaréia, porque é um leigo e considera a história da Igreja com critérios profanos, não religiosos, e não retoma as concepções de Sócrates. Ele tem diante da história da Igreja o mesmo comportamento que teria diante de qualquer história, de qualquer Estado: não deseja descobrir, como fizera Sócrates, a pre­sença de Deus nos acontecimentos que narra; os bispos não são apenas os homens da religião, mas também os homens que fazem a história daqueles tempos.

O proêmio da obra de Sozômeno foi considerado um dos momentos de maior consciência metódica demonstrada por um historiador antigo, devido, sobretudo, ao interesse dedicado aos documentos de arquivo e à valorização deles. De fato, Sozômeno não só declara que é necessá­rio praticar a autópsia das fontes, como, no fundo, já afirmara Sócrates (e, naturalmente, outros antes deles, embora a historiografia antiga não tenha sido muito sensível a esse critério, que muitas vezes permanecia apenas uma enunciação teórica), mas expõe também quais são as normas a ser seguidas para uma avaliação crítica dessas fontes.


B) SÓCRATES E SOZÔMENO
Como Sócrates se ocupou do período 305-439, Sozômeno de 324­439 (ou 414), somos instados a perguntar sobre as relações recíprocas entre as duas obras.

Pode-se notar que, por longos trechos, a narração dos dois historia­dores caminha lado a lado, quer concordem, quer discordem em relação a detalhes. Sobre uma eventual dependência de um escritor do outro, jul­gou-se ver em Sozômeno o imitador. Trata-se, porém, de uma imitação que tem finalidades bem precisas, ou seja, visa mais à diversificação que à repetição. Sozômeno serviu-se da obra de Sócrates como modelo, con­ferindo-a com os documentos, ampliando-a e corrigindo-a, na medida em que recorreu até às mesmas fontes empregadas por Sócrates, às vezes aproveitando-as com mais amplitude. Diferentemente de Sócrates, que em geral a cita, Sozômeno não menciona a fonte principal, mas nomeia os que fornecem notícias de caráter subsidiário. Já se disse que Sócrates é pródigo no emprego de documentos, que reproduz literalmente, ao passo que Sozômeno enfatiza a narração histórica propriamente dita. Ao contrário de Sócrates, por outro lado, ele elimina o mais possível as datações cronológicas precisas. No conjunto, a obra de Sozômeno manifesta uma secularização da história da Igreja; ao mesmo tempo, ele mostra, mais que Sócrates, um relativo interesse pelos acontecimentos da parte ocidental do império, acontecimentos que considera, seja como for, segundo a perspectiva de um bizantino. A secularização da histó­ria evidencia-se ainda mais, na medida em que Sozômeno dedica uma atenção especial à legislação imperial, que precisamente naqueles anos era reunida e organizada criticamente no Codex Theodosianus. A história de Sozômeno é contemporânea, pode-se dizer, à publicação deste, e o Codex podia muito bem ter fornecido ao historiador todas as leis que ele precisasse consultar.


C) O ESTILO E O PÚBLICO DE SOZÔMENO
Como escritor, Sozômeno é superior a Sócrates. Fócio já o conside­rara desse modo; sua linguagem é mais agradável, seu estilo mais fluente. Mas Sozômeno, se possui maiores dotes de narrador, continua inferior a Sócrates em relação à acuidade de avaliação histórica: ele é um pouco crédulo e gosta de narrar histórias milagrosas. O fato é que essa era a mentalidade e o gosto não tanto do historiador Sozômeno, mas do pú­blico a que ele se dirigia, que apreciava o anedótico milagroso, as vidas dos santos, as relíquias dos mártires, os fatos insólitos.


TEODORETO DE CIRO
Na enorme produção literária desse escritor, que foi teólogo (cf. p. 366-371) e exegeta (cf. p. 367-368), inclui-se, como conseqüência de sua imensa amplitude de interesses, também a historiografia.

A) A HISTÓRIA DA IGREJA
Teodoreto é também um historiador "eusebiano", no sentido de que se baseia na História da Igreja do bispo de Cesaréia; sua narrativa vai até o ano de 428 e, portanto, também ela chega ao reinado de Teo­dósio II.

A obra é dividida em cinco livros. O primeiro narra as dificuldades que a Igreja viu-se obrigada a enfrentar devido à heresia ariana no go­verno de Constantino; o segundo, a continuação da luta dos ortodoxos sob Constâncio. O terceiro é dedicado à história de Juliano, o Apóstata; quarto, aos acontecimentos até a morte de Valente. O quinto celebra o triunfo sobre o arianismo e sobre as outras heresias, como a de Apoli­nário e de Macedônio.

A História da Igreja foi escrita às pressas (provavelmente durante o exílio de Teodoreto em um mosteiro próximo a Apaméia, na Síria), e também o estilo se ressente disso, para não falar das inexatidões e dos erros de cronologia. Freqüentemente apresentam-se ao leitor apenas os documentos (sobretudo escritos sinodais), acompanhados de algumas poucas palavras de comentário. Contudo, precisamente nisso consiste, para o historiador moderno, o maior mérito da obra.

B) A HISTÓRIA RELIGIOSA
Alguns anos antes da História da Igreja, escreveu uma História religiosa) ou melhor, o modo de vida ascético, que consiste em uma história dos monges, ou em uma coletânea de biografias de monges, à maneira da História Lausíaca de Paládio (p. 648-649). Mas enquanto Paládio quer narrar as biografias dos monges de toda a cristandade, Teodoreto, como ele mesmo nos diz em seu prefácio, limita-se à descrição dos milagres dos combatentes por Cristo que se distinguiram entre todos no Oriente.

Serve de apêndice a esse livro o Tratado sobre a divina e santa caridade, que deseja demonstrar que havia sido o amor por Deus que encorajara e tornara os ascetas capazes de seus feitos.

Tradicionalmente essa obra costuma ser datada do ano 444.


FILIPE DE SIDES
Filipe de Sides, por sua vez, deve ser considerado à parte, mesmo se de­sobedecemos à cronologia e voltamos atrás, depois de chegar a Teodoreto, na medida em que não podemos incluí-Io entre os continuadores de Eusébio. Ele foi aluno de certo Rodão, que, segundo Dídimo, o Cego, teria sido professor da escola catequética de Alexandria na época de Teodósio (379-395); depois se teria transferido para Sides, uma cidade da Panfilia, na Ásia Menor. João Crisóstomo nomeou-o diácono; Filipe, de fato, mudara-se para Constantinopla, talvez antes de João. Foi presbítero, mas não conseguiu o episcopado.

Sua obra não foi uma "história da Igreja", mas uma História do cristianismo, e por isso voltou para os primórdios, até a criação do mundo. Devia, portanto, ser uma história enorme e extremamente variada: segundo Sócrates, era bastante incompleta no plano da cronologia e incluía questões de geometria, astronomia, aritmética, música, descrições de montanhas e de plantas. Quase toda a obra se perdeu.


GELÁSIO DE CÍZICO
Ignoramos quase tudo desse escritor, que agora nos leva para o final do sé­culo V e para fora da "história da Igreja" à maneira de Eusébio de Cesaréia e de seus continuadores. Gelásio era filho de um presbítero de Cízico, viveu depois na Biúnia e escreveu sua obra depois de 475-477. Não sabemos mais nada dele. Até sua história, aliás, estava longe de ser bem conhecida: foi chamada História dos acontecimentos do sagrado sínodo de Nicéia, ou mais simplesmente História do Concílio de Nicéia; mais recentemente, História da Igreja.

A obra de Gelásio é constituída de três livros, e não nos informa tanto sobre o concílio de Nicéia quanto sobre a história da Igreja no Oriente sob Constantino. O primeiro livro narra a vida de Constantino, dos primeiros anos de seu principado até sua vitória sobre Licínio em 323. O segundo é dedicado à história do concílio de Ni­céia, e o terceiro, que não chegou até nós inteiro, narrava, se for correto o que Fócio nos diz, o restante da vida de Constantino até seu batismo e sua morte em 337.

Desde a época de Fócio, Gelásio é criticado como escritor banal e de estilo pobre; contudo, do ponto de vista histórico, sua obra pode ostentar o mérito de ter tido acesso a fontes que desconhecemos ou que não são mais acessíveis. Nas passagens em que ele segue escritores que ainda podemos ler, como Eusébio, Sócrates e Teodoreto, podemos verificar que Gelásio se serve delas sem acrescentar nenhuma consideração pessoal, mas muito ao pé da letra, colocando uma citação após a outra de maneira absolutamente monótona e ornando-a de embelezamen­tos exteriores, sem nenhuma medida.


ZACARIAS RETOR
Após O grande florescimento da historiografia eclesiástica dos tem­pos de Teodósio lI, a produção de história desaparece por mais de um século; assiste-se, no interior do mundo cristão, à transformação ou à extinção desse gênero literário, entendido no significado clássico ou tra­dicional. A historiografia do século VI será sobretudo pagã.

Ao irrequieto ambiente cultural de Gaza, na Palestina, a que se fará menção também ao falar de Procópio e de sua exegese das Escrituras (p. 693), pertence Zacarias Escolástico, que provavelmente era irmão do próprio Procópio. Escre­vendo a biografia do monofisita Severo de Antioquia, de quem foi aluno, ele nos informa sobre seus primeiros anos. Seu discipulado ocorre por volta do ano 485, em Alexandria, onde se dedicou aos estudos literários e retóricos e participou das discussões sobre os problemas teológicos. Em 487 começou seus estudos jurídi­cos e passou a freqüentar a famosa escola de direito em Berito; em seguida, em 492, transferiu-se para Constantinopla, onde foi "retor", ou seja, orador, e "es­colástico", isto é, advogado. Em Constantinopla conquistou um certo renome e, por fim, foi designado bispo de Mitilene, na ilha de Lesbos. Como tal, ele parti­cipou em 536 do sínodo de Constantinopla, que condenou os monofisitas, entre os quais Severo de Antioquia (Zacarias se afastara, portanto, de seu mestre).

A) A HISTÓRIA DA IGREJA
Enquanto historiador de profissão (por assim dizer), pouco conhecemos de Zacarias, pois sua obra (cujo título preciso não sabemos) se perdeu no original grego, ao passo que chegou até nós em uma tradução siríaca. Essa tradução en­contra-se no interior de uma compilação mais ampla, em 12 livros, que parte da criação do mundo e chega até o ano de 568-569; a obra de Zacarias constitui a "história da Igreja" nessa compilação e se estende do terceiro ao sexto livro. A narração é ampla, particularmente interessante pelos acontecimentos do Egito e da Palestina, mas é repleta de lacunas e mais pobre com relação a outras regiões do império. O período histórico da obra de Zacarias é limitado: de 450 a 491, o ano da morte do imperador Zenão. Na cultura cristã de ambiente grego, a histó­ria de Zacarias exerceu pouca influência; só Evágrio Escolástico, ao que parece, serviu-se dela.

B) AS BIOGRAFIAS
Mesmo não sendo obras históricas em sentido literário, também as biografias de Zacarias podem ser consideradas assim em sentido lato. Elas também se con­servaram em tradução siríaca. A mais conhecida é a Vida de Severo de Antioquia, que é substancialmente uma defesa do próprio mestre monofisita, acusado de várias faltas, entre as quais se incluía a de paganismo. Outras biografias são a Vida de Isaías, um monge originário do Egito que, para buscar a solidão, se refugiara na Palestina, no deserto próximo de Gaza, onde Zacarias o conheceu. Chegou-­nos fragmentária a Vida de Pedro, o Ibérico, fundador de conventos e bispo, que exercera uma profunda influência sobre Zacarias. A Vida de Severo informa-nos, de fato, que Zacarias quisera dedicar-se ao monasticismo sob a orientação de Pedro, mas voltou atrás em sua decisão.

C) OBRAS APOLOGÉTICAS
Mais significativas são duas obras escritas em defesa do cristianismo, cujo original grego ainda conservamos. A mais famosa é a Discussão em polêmica com os filósofos a propósito da criação do mundo, um diálogo, escri­to em Berito e ali ambientado. Nele, Zacarias defende a doutrina cristã da criação do mundo realizada por Deus, em um debate com um discípulo do neoplatônico alexandrino Amônio, que, seguindo a doutrina daquela escola filosófica, considerava que o mundo fosse co-eterno a Deus.

A Discussão contra os maniqueus, suscitada pela condenação que o imperador Justiniano realizara em 527 contra aquela seita, em contra­partida, chegou até nós fragmentária.


TEODORO LEITOR
Só o conhecemos como "leitor" na Igreja de Santa Sofia em Cons­tantinopla no início do século VI.

Deixou um compêndio das histórias da Igreja escritas por Sócrates, Sozômeno e Teodoreto, que ele mesmo continuou depois até a sua épo­ca. A primeira dessas obras, o compêndio, chegou até nós, ao passo que a segunda, a continuação, que teria sido muito interessante para nós, perdeu-se. Como as obras dos três historiadores tratam mais ou menos do mesmo período, era conveniente realizar um trabalho de compilação e de síntese, reduzindo-as a apenas uma, que fornecesse uma narração mais clara, mais agradável no plano retórico, e mais confiáve1. A História da Igreja) dividida em três partes ( o título foi dado pelos modernos, por­que Teodoro a chamou simplesmente História da Igreja), foi traduzida em latim pelo monge Epifânio, do monastério de Vivarium, sob a super­visão de Cassiodoro, e teve muito sucesso na Idade Média.


EVÁGRIO ESCOLÁSTICO
Nascido entre 532 e 537 em Epifania da Síria, depois de ter estudado em Constantinopla, foi para Antioquia durante o patriarcado de Anastásio; exerceu a profissão de advogado, como se depreende de seu título, que indica certo nível de cultura, então comum nesses historiadores dos séculos V e VI. Foi questor na época do imperador Tibério li; depois, em 588, acompanhou em Constantinopla o patriarca de Antioquia, Gregório, que havia sido alvo de calúnias, e o defendeu diante do imperador Maurício. Este o nomeou prefeito; Evágrio morreu em An­tioquia por volta do final do século VI.

A única obra é uma História da Igreja, em seis livros, que compre­endia o período de 428 a 594, ou seja, chegava até a época do autor; é a única fonte histórica global para o período posterior ao concilio de Calcedônia. Evágrio declara no prefácio que deseja continuar os três historiadores do século V, então considerados conjuntamente, Sócrates, Sozômeno e Teodoreto. Teodoro Leitor não é nomeado e Evágrio pro­vavelmente não o conhece, pois afirma que desde a metade do século V não existira mais nenhum historiador.

Evágrio é um ortodoxo rigoroso: provinha de uma região (a de Apa­méia na Síria) fiel ao dogma de Calcedônia e hostil ao patriarca Severo de Antioquia, que era monofisita. A narração é um pouco prolixa, mas am­pla e extensa, e o estilo é agradável, tendendo a um tom arcaizante, uma vez que o ideal estilístico de Evágrio é Tucídides; conseqüentemente, o vocabulário é escolhido com cuidado; mesmo Fócio o apreciava. No se­gundo e no terceiro livro, ele se serve da História da Igreja de Zacarias, que ainda podia ler no original grego. Para a parte não estritamente cris­tã, ele se baseia em historiadores profanos, como Procópio de Cesaréia, retomado muito amplamente, e João, o Retor, ou seja, João Malala, de que falaremos daqui a pouco. Evágrio também foi lido e retomado pelos historiadores bizantinos.


BASÍLIO DE CILÍCIA E JOÃO DIACRINÔMENO
Não nos deteremos muito nesses dois obscuros historiadores sobre os quais não nos chegou quase nada.

Basílio, originário da Cilícia, foi por algum tempo presbítero de Antioquia, depois bispo de Irenópolis, na Cilícia, conhecido apenas no que se refere a Fócio, porque todas as suas obras se perderam. Teria escrito uma História da Igreja, em três livros, que cobria o período entre 450 e 540.

João teria sido chamado "Diacrinômeno", ou seja, "separado", pois era mo­nofisita. Siríaco de nascimento, parece ter sido contemporâneo mais velho de Basílio de Cilícia. Também ele, segundo Fócio, teria escrito uma História da Igreja, em dez livros. Os cinco primeiros livros iam de 429 (final da história de Sócrates, Sozômeno e Teodoreto) à época do imperador Zenão (474-491). Es­critos em estilo claro e variado, gozaram de certo apreço. Alguns fragmentos de sua História foram conservados pelos historiadores bizantinos, ao que parece já desde Teodoro Leitor.


JOÃO MALALA
Vamos concluir o exame da historiografia eclesiástica com algumas infor­mações sobre um autor que, rigorosamente, não seria um historiador, mas um "cronologista": pertenceria, portanto, a um gênero literário (a cronografia) que já havia sido cultivado pela mais antiga historiografia cristã, mas que foi um tanto obscurecido pela historiografia propriamente dita, e por fim voltou ao auge na era bizantina.

João, originário de Antioquia, onde exercia a profissão de retor (e como tal conheceu Evágrio Escolástico), recebeu o sobrenome de "Malala", que em siríaco significava, precisamente, "retor'. Esse sobrenome leva-nos a pensar que ele não pertencia à população grega de Antioquia, mas à siríaca. Algumas alusões de caráter autobiográfico informam-nos que João viveu na metade do século VI; provavelmente era adepto do monofisismo. Sua obra, que teve enorme difusão na Idade Média bizantina, é uma Cronografia, em 17 livros, que partia da história lendária do Egito para chegar a 563 d.C. Ela chegou até nós em uma recensão reduzida, enquanto o texto mais amplo só pode ser reconstruído por meio de fragmentos e extratos conservados por outros autores.

O escritor pretendia escrever um livro de história, destinado à informação de um amplo público, não de pessoas mais cultas. Ao lado da grande cópia de dados, de fato, acumula, porém, também curiosidades de todos os tipos, mistura coisas importantes com outras supérfluas, notícias verdadeiras com notícias falsas. Não faltam mal-entendidos e deformações dos fatos, devidos à inserção de elementos aventurescos; mas há também notícias interessantes relativas à Ásia Menor e, mais particularmente, a Antioquia.

A linguagem é bastante popularizante, com latinismos e semitismos.


Por MORESCHINI, C. & NORELLI, E. Manual de literatura cristã antiga grega e latina. São Paulo: Santuário, 2005.


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