A Civilização dos Bárbaros

As migrações germânicas provocaram, nas províncias romanas do Ocidente, encontros de civilizações originais, freqüentemente bem com­plexas. Desses choques nasceu nossa civilização medieval civilização de síntese, onde é difícil distinguir as tradições romanas e as múltiplas con­tribuições bárbaras. Desde mais de um século, os historiadores, segundo as técnicas de pesquisa, os progressos das ciências auxiliares Ou mesmo segundo as teses e correntes de opinião, deram maior ênfase a um ou outro mundo.

Parece ainda impossível avaliar, mesmo de uma maneira aproxima­da. a importância do povoamento bárbaro. Os estudos recentes concor­dam, geralmente, em destacar o número relativamente pequeno de inva­sores e, desde muito tempo, abandonou-se a idéia de uma onda humana ou de vagas irresistíveis que tivessem submergido o Império, totalmente destruído por sua passagem. Em região alguma se instalou uma ordem política absolutamente nova, impondo modos de vida totalmente diferentes. Essas migrações bárbaras são. Principalmente, do ponto de vista humano, infiltrações de grupos étnicos pouco numerosos entre populações já bem diversificadas.


De fato, as estimativas numéricas mais audaciosas referem-se apenas aos exércitos bárbaros, no momento das grandes migrações e conquistas; as mais rigorosas apresentam números rela­tivamente modestos: de 10000 a 80000 homens aproximadamente. Os visigodos, para os quais os levantamentos parecem mais precisos e coerentes, e que foram sem dúvida os mais numerosos, eram talvez uns 100000, no momento em que se estabeleceram na Gália do Sul e, portanto, muito menos depois de Vouillé e do todo além dos Pireneus. Se estimamos em 7 ou 8 milhões de habitantes a população da península ibérica, constatamos então que se trata de uma contribuição humana bem modesta, incapaz de provocar, no plano regional ou mesmo local, povoamentos compactos, exclusivamente gados. Por todas as partes, os invasores deviam viver misturados aos ibero-romanos; não formaram jamais comunidades puras.

Para os outros germanos, os números permanecem incompletos. Seria necessário, para medir mais exatamente a influência germânica, avaliar as migrações, os deslocamentos de pequenos grupos. Já antes do século IV, vários aspectos da civilização, da vida política e do direito das provín­cias romanas achavam-se profundamente marcados pelos contatos com os bárbaros estabelecidos no Ocidente.


Os estudos de nomes de pessoas e de lugares, nos quais se apóiam hipóteses por vezes precipitadas, são de elaboração muito delicada. As críticas, certamente excessivas sem dúvida, de F. Lot demonstraram a fra­gilidade de certas conclusões. A presença de um grande número de sufixos germânicos só pode ser calculada de um modo relativo em rela­ção ao total de topônimos da região, para uma determinada época. O próprio aparecimento desses nomes não prova forçosamente um povoa­mento intenso mas, Freqüentemente, a presença única de uma classe domi­nante, por vezes pouco numerosa cujos costumes, nomes e prenomes, como se fora uma nova moda, são facilmente adotados pelo resto da população. Toda tentativa de numerar dessa maneira a importância da implantação choca-se sempre com obstáculos intransponíveis.


DEFESA DA ROMANIDADE

Parece mais fácil definir as formas· da resistência romana, da qual dependia, em suma, a manutenção dos gêneros de vida, da língua e do direito tradicional. Essa defesa foi freqüentem ente subestimada e várias obras insistiram numa ruptura fundamental entre o fim do Império romano e os primeiros tempos bárbaros.

A resistência apresenta-se bem desigual. Não se estabelece mais, no século IV, sobre uma frente contínua, sobre o limes intacto. Esse limes destruído ou enfraquecido, arruinado em vários pontos, mantém, entre­tanto, um vigor concreto: permanece uma zona fronteiriça entre duas civilizações em si estranhas. Isto principalmente em relação à Germânia, onde o limes apoiava-se em sólidas cidades, cidades de guarnições, gran­des centros administrativos e mercados prósperos, que mantêm durante muito tempo o povoamento, os estilos de vida, as atividades econômicas do tempo dos exércitos romanos. No Reno, na região do Mosela, em toda a porção norte da Gália mesmo, esta "rua de cidades" fortificadas marcou profundamente, durante séculos, a civilização, as formas de expressão das regiões vizinhas. Em certos pontos, a persistência de uma estrutura social estreitamente ligada à cidade, a das villae urbanae, mantém im­portantes "ilhas" romanas em plena terra germânica. No total, entre Bâle e o mar, a fronteira lingüística entre os que se expressam em romano e os que falam dialetos germânicos estabelece-se não em função de barreiras naturais mas, de uma maneira bem regular, a uma centena de quilômetros a oeste do limes. Enquanto mais para o leste, nas regiões além dos Alpes, onde a implantação romana foi consideravelmente mais fraca, essa fronteira se encontro: então bem ao sul do antigo limes do Danúbio (L. Musset, mapa pág. 175).

Do ponto de vista propriamente militar, entretanto, a defesa romana contava menos com as fortificações do que com os grandes exércitos de campanha, forças de intervenção eficazes, estacionadas uma na Gália do Norte (a de Siagrius somente derrotada por Clóvis em 486) e a outra na planície do PÓ, nas proximidades de Milão, Verona e Ravena (coman­dada por Odoacro). Nas regiões do Sul, a defesa dependia mais ainda da frota, por muito tempo senhora do Mediterrâneo, capaz de assegurar a proteção dos comboios de trigo, das grandes rotas mercantes, dos por­tos, das relações com a Grécia e o Bósforo, capaz também de enviar reforços. É por mar que os imperadores do Oriente mantêm sua dominação ou influência, que chegam os exércitos, os funcionários, os clérigos e monges formados e instruídos em Constantinopla. Graças ao mar, a cidade do Bósforo toma-se a capital espiritual e intelectual do mundo romano. Enfraquecido em terra, suas defesas destruídas, o Império guarda ciosa­mente a dominação no mar e impede seus súditos de ensinar aos bárbaros a arte de construir navios. Do que resulta o choque decisivo das duas civilizações: a dos germanos nômades ou seminômades, cavaleiros pas­tores ou infantes, a dos romanos, de cidades e portos movimentados por rotas ancestrais.

Somente o Império vândalo de Genserico ameaça por um tempo a dominação romana no Mediterrâneo. A reconquista foi julgada de várias maneiras. Apesar de significativos êxitos, chocou-se a seguir com duas resistências. Os historiadores, quase todos, destacam os trágicos efeitos sofridos pela Itália em virtude da guerra contra os ostrogodos e em seguida contra os lombardos. Alguns, ávidos de exaltar as virtudes bár­baras ou germânicas, fazem dos lombardos um povo já dotado de uma sólida estrutura política, de uma rica civilização, capaz ao menos de rege­nerar a Itália perdida em virtude dos excessos ou da debilidade dos orientais. A despeito desse descrédito quase geral, entretanto, perceptível principalmente em autores alemães de antes da guerra, o empreendimento de Justiniano apresenta-se como um dos fatores decisivos da defesa da romanidade. Permitiu retomar as tradições antigas, fornecer novamente as lições do Oriente no plano espiritual e artístico. Isto bem além da Itália, certamente mesmo fora do mundo mediterrâneo.

Toda a Espanha vê a chegada dos mercadores gregos ou sírios, enquanto que orientais fundam mosteiros ou ocupam sedes episcopais: assim Paulo, um velho médico grego e, poste­riormente, seu sobrinho Fidélio de Mérida (fim do século VI). Martinho, um padre vindo da Arábia para evangelizar os suecos, introduz em Braga, no noroeste da península, o ascetismo e os costumes contemplativos do monacato oriental. As peregrinações à Terra Santa, os concílios ecumênicos, os estudos de prelados em Constantinopla (sempre no século VI, João de Gerona e depois João de Santarém) reforçam ainda esses laços espirituais. Na Espa­nha, também, os israelitas estabelecidos nas cidades enviam seus filhos para estudar nas escolas da Pérsia e da Mesopotâmia: em Sora, em Pombeditah principalmente, na Caldéia. A Africa e a Espanha bizantina permanecem, como outrora, pontos de escala na rota marítima em direção a Armórica e à Bretanha. Na Irlanda, na Cornualba, em Devon, encon­tram-se ainda ânforas confeccionadas no Oriente. É viável, portanto, pensar em pontos de contato entre essas cristandades extremo-ocidentais e Constantinopla. Nas grandes igrejas dos mosteiros irlandeses, um muro barrava a nave, do mesmo modo que os iconóstases do Oriente; no convento de Sta. Brígida em Kildare, esse muro era coberto por marfins, imagens pintadas sobre madeira, trazidas de Roma ou de Constantinopla.

A influência bizantina mantém-se bem marcante na Itália, muito depois da invasão lombarda, nas províncias do Sul (Campânia, Apúlia, Calábria), nas ilhas que permaneceram sob a dominação do imperador do Oriente e nas zonas de refúgio, por muito tempo protegidas por um limes e com pouca penetração dos invasores. Isto ocorre em Veneza, que recebeu, nas lagunas e cidadelas de pescadores, elementos de cidades do interior, em Gênova, aonde afluíram os milaneses, e na própria região de Ravena, que mais tarde os italianos denominaram de "terra dos romanos", a Romanha.


O GENÊROS DA VIDA: OS BÁRBAROS E A CIDADE

Tornou-se um lugar comum relacionar a civilização germânica a uma vida mais ou menos nômade ou errante, estranha todavia às tradições da vida urbana. As invasões bárbaras teriam então provocado uma desin­tegração das cidades, das relações do comércio e do artesanato urbano, da própria economia monetária. Esta visão clássica, no todo, não é ine­xata; deve ser somente matizada, pois apresenta, em algumas regiões, várias exceções.

Certamente, o habitat natural dos germanos, nas regiões do Norte ao menos, não era a cidade cercada: por muralhas, nem a villa romana de pedra, mas a aldeia, onde as cabanas de madeira alinhavam-se em filas. Não se sabe se estas aldeias correspondem a novos estabelecimentos ou se foram instaladas sobre ruínas de villae destruídas. Muitas também, sem dúvida, são uma continuidade das antigas aldeias ceItas, do mesmo tipo, que a ocupação romana não havia feito desaparecer completamente. Desse modo, a: extinção ou o enfraquecimento dos gêneros de vida propria­mente romanos explicam-se tanto pela revivescência: de "barbáries indí­genas" como pelo êxito de "barbáries importadas" (L. Musset). A evo­lução certamente foi muito lenta e pouco perceptível aos olhos dos contemporâneos, que continuaram a empregar o mesmo nome: villa depois village.

Em todo o Ocidente, todavia, o estabelecimento dos bárbaros marca um certo declínio das cidades, bem desigual, é verdade. Essa regressão foi, efetivamente, bem mais forte na Gália: os habitantes abandonam uma parte importante da cidade e se refugiam num núcleo fortificado, perto das arenas ou freqüentem ente próximo a uma porta. Em Autun, o muro de 6 quilômetros de comprimento acha-se reduzido a I 300 metros, em Perigueux a superfície de Vesone passa de 50 ha a 5 ha. Ao passo que, na Espanha e na Itália, quase todas as cidades conservam, senão suas atividades, ao menos sua importância como outrora (salvo Bolonha: de 70 ha a 25 ha).

De fato, a civilização urbana só desapareceu realmente na Inglaterra e na Armórica. A conquista anglo-saxônica na Bretanha acompanha-se por uma germanização quase total da região: abandono da língua bretã e do cristianismo, de quase todas as cidades e as villae. Em todas as outras províncias do Império, as migrações germânicas não parecem responsáveis pela extinção da cidade romana. Na própria Africa, Chr. Courtois demonstrou que os reis vândalos mandaram executar importantes obras em Cartago, onde o porto sempre recebeu mercadores estrangeiros e onde estão representados, no concílio de 525, os bispos de 61 centros da Africa.

Na Gália, na Espanha e na Itália, os reis francos ou godos não eram reis nômades, mas mantinham seus palácios em várias cidades administra­tivas. Uma feliz abordagem do assunto realizado por E. Ewig salienta a importância das cidades capitais, residências reais, enriquecidas por uma corte, estabelecimentos administrativos, escolas, santuários, uma basílica funerária para a dinastia. Isso ocorre na Gália, em Orléans, Soissons, Reims e principalmente Paris: palácio da cidade, depois de Clichy, ne­crópoles reais da abadia dos apóstolos e Sta. Genoveva), da Sta. Cruz eSt. Germain-des-Prés), posteriormente Saint-Denis. As grandes residên­cias principescas, condais ou episcopais, fortificadas, cercadas de casas da família, os santuários dispersas pela cidade ou fora de seus muros, os burgos abaciais, freqüentemente cercados por muralhas, movimentados pelo mercado e pelo trabalho dos artesãos, caracterizam de maneira deci­siva a paisagem urbana da Gália, entre o Sena e o Reno. Às antigas cidades romanas já se substituem cidades mais anárquicas, principal­mente cidades duplas ou múltiplas, aglomerações, "conglomerados de cidades".

Na Espanha, os visigodos, criadores de gado, estabeleceram-se nos altos planaltos do centro. Sua instalação provoca sem dúvida um enfra­quecimento da vida urbana: episódio dramático dessa fase foi a destrui­ção de Cartagena, retomada aos bizantinos em 618. Os godos mantêm, entretanto, algumas guarnições nas cidades do Norte; alguns casam-se com mulheres da aristocracia hispano-romana; são numerosos, dado que se encontra um bispo ariano em varias cidades da Galiza (Viseu, Tuy, Palência) e do Oriente (Barcelona, Tortosa, Valência). Mérida e Toledo, capital política fortificado por Leovigildo (568-586), embelezam-se com ricos mosteiros e basílicas, enquanto Sevilha, metrópole religiosa dos cató­licos, permanece ainda, com os bispos Leandro e posteriormente lsidoro, fiel à tradições antigas. Ao redor dos próprios palácios reais, construídos a princípio fora da cidade, constroem-se verdadeiras cidades capitais, mais tarde abandonadas, mas muito imponentes para a época: Gerticos (pró­ximo a Salamanca), Pampilica (próximo a Burgos) e sobretudo Recópolis, sobre o Tejo, com suas belas muralhas com 600 metros de comprimento, cercando uma cidade de 30 ha. Toledo, enfim, deve aos reis bárbaros sua riqueza e seu prestígio, seu brilho intelectual e artístico, que se mantém bem depois da conquista muçulmana.


HEERS, J. História Medieval. Lisboa: Difel, 1986.

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