A questão da Imagem, por André Bueno

Outro ponto importante é a conceituação que podemos utilizar para trabalhar a Imagem. Inicialmente é preciso esclarecer que a linguagem das imagens, veiculada pelos discursos verbais ou não verbais, constitui uma série de eventos comunicacionais, cujas mensagens que encerram somente podem ser entendidas se contextualizadas socialmente e historicamente, quer dizer, de acordo com as condições sociais de sua produção.

É imprescindível a comparação com outros discursos que circulam na mesma época de produção, quer dizer, a intertextualidade e a heterogeneidade dos textos, objetivando-se enfocar os significados do autor e a recepção das mensagens. Esta forma de operacionalização da documentação de natureza diversa permite que o investigador identifique os “modos de mostrar” - (distintos usos da linguagem e de outros sistemas semióticos pelos quais são construídas as formas de discursos existentes no processo comunicacional) -, através dos quais se constróem os “modos de interagir” - (uso da linguagem e demais sistemas semióticos, os quais estruturam as identidades e relações sociais assumidas no processo comunicacional) - e os “modos de seduzir”, os quais, de forma positiva ou negativa, apresentam os valores, empatias, simpatias, aversões, associadas ao contexto de produção dos discursos em estudo. (Casasus, 1979:8-32 e Chartier, 1988)

A prática analítica nos possibilita a investigação dos processos de identificação, produção, consumo e regulação ligados à produção dos discursos de natureza diversa. Objetivamente, perceber o modo de operação destas imagens sobre o mental das sociedades que ela abrange é buscar compreender o que L. Lavaud chamou de “estratégia do olhar”, ou seja, de como as representações começam a criar distinções preservando, porém, um princípio que define o seu caráter original (Lavaud, 1999:32).

Assim sendo, podemos definir nossa análise em torno dos seguintes pontos: 1) Processo intercultural de trocas, cuja valoração de aspectos simbólicos ou imagéticos estaria de acordo com os interesses de uma dinâmica de relacionamento entre identidade e alteridade de um grupo e de sua proposta de apropriação e construção de novos significados; 2) Analisar os elementos iconográficos e/ ou textuais que nos permitam identificar o processo de criação de uma imagem do grupo e a definição de seus componentes; 3) Contraposição destas análises aos modelos históricos e artísticos que compõe o contexto histórico da produção da imagem, para verificar a validade (ou não) do processo de transformação e 4) Compreensão de um mundo simbólico e imaginário como mosaico de civilizações distintas que, longe da compartimentação histórica que se lhes atribui, encontram-se em dinâmico processo de interação, compartilhando diversos movimentos religiosos e intelectuais que ocorrem nesta época.

CASASUS, J. Teoria da Imagem. RJ: Salvat, 1979
CHARTIER, R., A história cultural: entre práticas e representações. Lisboa, Difel, 1988
JOLY, M. Introdução a análise da Imagem.Campinas: Papirus, 1996.
LAVAUD, L. L’image. Paris: Flamarion, 1999


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