Diálogo Intercultural, por André Bueno

O processo intercultural parte da perspectiva que há uma circulação (ou troca) de elementos entre duas culturas que se reconhecem como tal, e este intercâmbio é determinado por interesses sociais, políticos ou mesmo por empatia. Para que ele possa existir, é necessário que um dos grupos identifique, no outro, similitudes com seus hábitos ou, então, procedimentos que lhe pareçam válidos para serem absorvidos. A idéia intercultural parece, portanto, ser bastante apropriada para a compreensão do processo de construção de uma cultura e seu imaginário.

Devemos apontar, com mais clareza, para a questão da identificação, que aqui é fundamental. Ela parte da necessidade de definir a identidade que um movimento social objetiva construir em relação às religiões, culturas ou sociedades das quais busca se diferenciar e, ao mesmo tempo, das quais visava se aproximar. Em um ensaio bastante esclarecedor, K. Woodward (Silva, 2000:7-73) apresenta alguns dos muitos aspectos pelos quais devemos tratar a questão da identidade, de maneira a compreendê-la melhor num determinado contexto espacial e temporal. Tais pontos incluem: a noção que o grupo possui de si mesmo para que possa se definir como tal (língua, hábito, costumes, ideologia); se essa cultura que o grupo reivindica como própria possui semelhanças com outra; se no fenômeno de definição de uma identidade, o grupo estabelece uma série de contraposições das mais diversas ordens a outro(s) grupo(s) verossimilhante(s); e, por fim, quais são as demarcações simbólicas, materiais, étnicas e classificatórias que um grupo estabelece para diferenciar sua identidade em relação a dos outros (Ibidem, 13-15). Isso significa para o nosso trabalho, portanto, tentar identificar as demarcações que os grupos sociais estabelecem para construir uma identidade que assegure sua especificidade, e que permitiam - ao mesmo tempo – a construção de um conjunto de símbolos que podiam ser identificados pelas mais diversas sociedades, através do processo de mestiçagem cultural. (Gruzinski, 2001:13-62) Exatamente por isso podemos dizer que a produção da identidade, como bem apontou T. T. da Silva, passa não somente pela questão da afirmação de uma semelhança (entre os componentes do grupo), mas também pelo estabelecimento da diferença – ou seja, aquilo que busca-se objetivamente negar, seja uma cultura, uma partição social, uma religião, etc (Silva, 2000:73-103).

Assim sendo, podemos definir, enfim, que a identidade se constitui num conjunto composto de mitos, memória, valores e símbolos que norteiam as práticas sociais e resultam em processos de identificação. Sua construção apresenta uma dinâmica relacional, pois é construída por meio da diferença e da criação de um tempo específico, histórico, sendo passível de mudança. Assim, nosso estudo pôde a destacar os seguintes elementos que, de forma integrada, explicariam o processo de construção de identidades:

1) as reivindicações essencialistas sobre quem pertence e quem não pertence a um determinado grupo identitário e, por conseguinte, às práticas de exclusão e de identificação;

2) a identidade é relacional, e a diferença é estabelecida por uma marcação simbólica frente a outras identidades. A marcação simbólica fundamenta-se nos sistemas de representações, que somente apresentam significado se inseridos no circuito da produção cultural do grupo, dando sentido às práticas e às relações sociais;

3) os sistemas de representação que sustentam as identidades envolvem a criação de sistemas classificatórios, a demarcação de fronteiras entre o “nós” e o “eles”. O processo de classificação é central na vida social, pois a separação e distinção organizam o posicionamento de diferentes grupos sociais para garantir o acesso aos bens sociais, afirmando e reafirmando as relações de poder;

4) o simbólico e o social implicam nos processos de identificação, definindo os ideais de pertença e exclusão.

Desta forma, a partir da demarcação das diferenças representadas pelos “outros”, a identidade é uma produção, uma relação, um ato performativo. São construídas dentro - e não fora - das formações discursivas e narrativas de uma sociedade, as quais somente podem ser analisadas se entendidas como práticas culturais inseridas em contextos históricos específicos.

Por conseguinte, na medida em que um grupo buscou criar sua própria identidade, podemos afirmar que ele detectou a necessidade de criar ou absorver novos procedimentos para alcançar tal fim; procurou elementos simbólicos alternativos dentro da própria cultura e em outras culturas; criou uma dinâmica artística própria, flexível, reconhecida por várias culturas diferentes e, por fim; cumpriu o propósito de movimentação e proselitismo, apresentando-se de forma aproximada as sociedades com o qual mantinha contato. Além disso, no desenvolvimento de todo este processo, o grupo ainda pode levar, para outras civilizações, o processo de mestiçagem cultural que caracteriza sua produção artística e religiosa. (ibid. Gruzinski)

GRUZINSKI, S. O pensamento mestiço. SP: Companhia das Letras, 2001
SILVA, T. T. “A produção da identidade e da diferença” em SILVA, T. T. (org.) Identidade e Diferença. Petrópolis: Vozes, 2000
WOODWARD, K. “Identidade e diferença: uma introdução teórica e conceitual” em SILVA, T. T. (org.) Identidade e Diferença. Petrópolis: Vozes, 2000


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